À medida que avanço estudando Literatura em sua teoria, percebo um comportamento muito comum da Academia e que por vezes me vejo imitando, como uma imposição involuntária: a desconsideração de nossa impressão primeira sobre um texto literário. De um modo muito peculiar, parece que o exercício de pensar uma obra além de suas qualidades estéticas vem produzindo uma tendência a nos imaginarmos sempre como alguém que, num primeiro momento, não conseguiu encontrar a chave para avaliar um romance. Aquilo que lemos e achamos ruim deve se manter em suspenso até que analisemos cada um dos muitos aspectos sobre o que diz a tradição literária, o momento histórico em que foi concebida a obra, o que permeia a vida do autor, etc. Nunca a primeira impressão nos dá uma certeza, levamo-la em conta apenas como um indício para o julgamento posterior, de modo que quase sempre passamos a dizer que a obra “falhou” nesse ou naquele aspecto, desrespeitando o que diríamos se não fossem esses filtros adquiridos pela análise de fatores externos ao texto. Diríamos talvez que o livro é “ruim” ou “muito ruim”, assim taxativo, num impulso ególatra do leitor em dizer que uma vez que suas expectativas não foram atendidas, a avaliação somente pode ser a mais negativa possível.
Um exemplo prático disso é quando lemos algo, não gostamos e posteriormente uma análise mais detalhada encontra uma série de referências utilizadas na obra. O fato de haver referências que não foram observadas durante a primeira leitura podem ser relevantes para sua compreensão e apreciação. No entanto e no caso dessas referências existirem e não melhorarem em nada o que lemos? O fato de o escritor fazer mau uso em seu texto de referências a outras obras boa parte das vezes não é nem levado em conta. Costuma-se dizer apenas que a obra “conversa” com a tradição literária ao utilizar esta ou aquela referência, mesmo que essas referências pareçam ser apenas utilizadas de maneira circunstancial. Aquilo que temos como medida avaliativa perde força num debate, algumas vezes somos acusados de ignorância ao não levar em conta os autores que influenciaram o escritor a escrever daquele modo. De modo que somos, involuntariamente, movidos a amenizar nossas críticas, relativizar nossas impressões negativas.
Não defendo aqui a apreciação estética como critério maior e sublime na avaliação de uma obra. Um debate sobre literatura com argumentos do tipo “gosto mais disso” e “não gosto disso” é tão infrutífero como a falta de debate. Porém, é sintomático o fato de que sua relativização quase sempre seja defendida como um meio de se chegar a um juízo de valor mais justo. Recentemente, o caderno Prosa e Verso do jornal “O Globo” elaborou um especial sobre a crítica literária de hoje no Brasil e uma preocupação sobre sua continuidade se mostrou evidente. O que vemos às vezes é que aquilo que realmente importa – se um crítico gostou ou não gostou de uma obra e o porquê – fica tão escamoteado no texto, que muitas vezes uma resenha mais atrapalha do que ajuda o leitor a ter uma idéia do que se trata o livro.
Talvez o único modo de escapar a essa tendência envolva refletir sinceramente naquilo que nos atrai e no que consideramos ser boa ficção, buscando encontrar alguns parâmetros norteadores do que seja boa literatura. Por serem pessoais, muitos desses parâmetros poderão causar discordância ao serem expressos. Algumas vezes também, poderá parecer contraditório afirmar gostar de algo que viole alguns desses parâmetros, mas essas contradições são aceitáveis na medida que são fruto de nossa educação (ou falta de), do enquadramento que buscamos encontrar na literatura. Me incomoda não haver uma receita prática para objetivar nossos julgamentos e extrair deles nossos próprios parâmetros de avaliação, assim de imediato. Pessoalmente tenho tentado um modo que ainda não tem se mostrado de todo eficaz ou prática, mas que na falta de qualquer outro me faz seguir um norte ao discutir. Vou tentar posteriormente falar mais a respeito. Por hora é preciso defender essa necessidade de julgamentos mais incisivos, julgamentos que normalmente levam a um esclarecimento acerca das direções que parecem ser mais promissoras a serem seguidas. Claro que tudo isso pode estar errado e podem não fazer sentido algum para outros. Mas o que realmente importa é que, como leitores, sejamos sempre fiéis a nós mesmos.
O escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2008. Segundo a Academia Sueca Le Clézio é “author of new departures, poetic adventure and sensual ecstasy”. Pelo menos três de suas obras estão disponíveis em português: O Peixe Dourado, A Quarentena e O Africano.

“Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.”
O trecho acima é parte da coluna Despedida da revista piauí de outubro. O resto do texto “A liberdade de ver os outros” pode ser lido aqui.
O primeiro jogo da segunda edição da Copa de Literatura já está no ar. Como na primeira edição, um dos favoritos caiu já na primeira rodada. Parece que muita discussão boa vem por aí!
“Think for a second—what if all the infinitely dense and shifting worlds of stuff inside you every moment of your life turned out now to be somehow fully open and expressible afterward, after what you think of as you has died, because what if afterward now each moment itself is an infinite sea or span or passage of time in which to express it or convey it, and you don’t even need any organized English, you can as they say open the door and be in anyone else’s room in all your own multiform forms and ideas and facets?”
David Foster Wallace - “Good Old Neon”
O escritor David Foster Wallace foi encontrado morto aos 46 anos. A característica que mais admirava em seus textos era sua capacidade de digressão que impunha à nossa percepção detalhes e minúcias de um modo admiravelmente excessivo. Suas notas de pé de paginas - páginas sim, pois essas notas costumavam ser gigantescas - davam a sensação de que estávamos avançando por uma rede de textos dentro de um livro. Um de seus melhores textos está publicado em português, o conto “A Pessoa Deprimida” do livro “Breves Entrevistas com Homens Hediondos”. A notícia do suicídio do escritor me fará lê-lo novamente. Mas não hoje.
Continuando as entrevistas sobre o Amores Expressos, nessa semana conversei com João Paulo Cuenca, autor dos romances Corpo Presente e O Dia Mastroianni. Cuenca foi um dos quatro escritores brasileiros selecionados pelo Bogotá 39, um projeto que no ano passado selecionou os melhores escritores latino-americanos com menos de 39 anos.
Leandro Oliveira: Seus dois romances são bem diferentes de muitas maneiras. Somente para citar uma diferença que é marcante em minha opinião: enquanto Corpo Presente tem um tom mais sério, a ironia e o humor dão o tom em O Dia Mastroianni. O que o leitor encontrará no novo livro? Você o aproximaria mais ao seu primeiro ou segundo romance?
João Paulo: Apesar de terem humores opostos, como você percebeu, há terreno em comum entre esses dois primeiros romances, quase como se eles fossem faces diferentes de uma mesma moeda. Poderia destacar o jogo de metalinguagem, entre outros fatores. Mas o romance do Japão, como o estou chamando, é uma guinada em outra direção. Acho que ele é radicalmente diferente dos anteriores, que já são bastante diferentes entre si, especialmente no uso da linguagem. E isso não me preocupa, ao contrário, me estimula.
L.O.:Você cita em seu blog algumas leituras sobre a cultura japonesa e diz que, apesar de interessantes, não o faziam “sequer arranhar a superfície dessa sociedade complexa”. Depois daquele post, você conseguiu encontrar em alguma leitura, algo que ampliasse sua visão dessa cultura? Acha que conseguirá em seu livro fazer o leitor, citando suas palavras, ao menos arranhar a complexidade cultural do país?
J.P.: Certamente o meu objetivo não é esse. Se assim fosse, me enfurnaria em bibliotecas e escreveria um ensaio, não um romance. Sobre o romance, penso que se o leitor sair tão desorientado da experiência como eu, já me dou por satisfeito.
L.O.: Você escreveu bastante em seu blog sobre diversos aspectos culturais de Tóquio. Eu apostaria que você foi talvez o escritor que mais falou sobre a cidade que visitou. Além dos textos, há também boas fotografias e vídeos. Não pensou em, a partir desse material, publicar um livro de crônicas? O que é mais fácil: escrever crônicas ou ficção sobre a cidade?
J.P.: É muito mais fácil escrever crônicas porque elas são produto direto de experiências e olhares muito recentes, da mesma semana ou dia em que se escreve. Não preciso ficcionalizar muito, e normalmente não penso numa estrutura literária ou num estudo de linguagem, coisa que durante a escrita de um romance acontece. Sobre um livro de crônicas, tenho cogitado isso, sim. Mas seria um livro com uma seleta geral – publico crônica em jornal há cinco anos.
L.O.: Quanto aos documentários do projeto, já é possível adiantar algo? Qual foi a orientação do diretor? O que esse registro procurará abordar em relação à literatura?
J.P.: Quem poderia falar melhor sobre os docs são o Tadeu Jungle e a Estela Renner, que conduzem essa parte do projeto. Minha experiência, como entrevistado, foi a melhor possível. Acredito que o registro enfocou o processo criativo de cada um, dentro do tema proposto (escrever uma história de amor naquela cidade). Mas acredito que as entrevistas tenham rendido muito mais. Desconfio que escritores sozinhos em cidades desconhecidas possam se tornar pessoas bastante suscetíveis, o que é ótimo para uma entrevista.
L.O.: Por último (e saindo um pouco do assunto Amores Expressos), seu livro O Dia Mastroianni alterna o relato do passeio dos protagonistas com trechos de uma voz crítica, que julga todo o tempo elementos do texto. Existe nessa voz argumentos que são usados por parte da crítica literária contemporânea (escatologia num texto literário é algo ruim, para citar apenas um exemplo). Como você enxerga a crítica literária contemporânea? Está satisfeito com a receptividade da sua obra? Ou é algo que o preocupa?
J.P.: A crítica foi generosa comigo desde o início, o que talvez tenha me corrompido para sempre. Mas, como disse a outro jornalista que me fez pergunta parecida recentemente, estou com uma preguiça olímpica de entrar nesse tema. Acho que já o visitei na ficção, como você bem apontou, e essa visita fazia sentido no contexto daquele romance - que pode ser lido como uma sátira a um pretenso aspirante a escritor ou poeta. Mais não digo, porque fazer uma exegese da crítica não é o meu papel. O meu papel nesse jogo é escrever, e escrever melhor, simplesmente. A crítica é que deve se ocupar de mim, se assim quiser.
Parte I
Parte II
O monólogo de Molly Bloom interpretado por Angeline Ball em Bloom, uma adaptação para o cinema da obra de Joyce, dirigida por Sean Walsh em 2003.
E no último evento desta odisséia, num tempo indeterminado, vemos Molly deitada em sua cama. O monólogo é talvez o trecho mais conhecido da obra de Joyce, citado por muitos (mesmo por pessoas que nunca leram todo o livro), como um dos mais inovadores textos da literatura. É um impacto para o leitor folhear o longo texto sem pontuação, fragmentado, intemporal, onde os pensamentos se ligam através de associações fortuitas, tal como faz a mente humana. No fim, a lembrança da primeira vez em que ela e Bloom fizeram amor.
“sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims.”
Duas da manhã e Bloom está agora com Stephen em sua casa, na rua Eccles, um símbolo perfeito para a Ítaca de Homero na Odisséia. Eles perderam a chave da casa e, como não querem acordar Molly, pulam a grade e entram pelos fundos. Bloom convida Stephen a morar com eles, mas ele recusa. Depois vão até o jardim onde urinam juntos. O texto é um dos mais engraçados do livro, com o enredo sendo apresentado parodicamente em forma de perguntas e respostas, como o exemplo abaixo nos mostra.
“Aceitou Bloom o convite para jantar feito então pelo filho e depois secundado pelo pai?
Muito agradecidamente, com grata apreciação, com sincera gratidão apreciativa, em apreciativamente grata sinceridade de pesar, declinou.”
Uma da manhã. Começa aqui a terceira e última parte da obra. Stephen e Bloom estão num abrigo de cocheiros bebendo café e pouco depois iniciam uma conversa com um marinheiro. Bloom fala do desentendimento no bar (no capítulo com referências ao Ciclope). É o encontro simbólico entre pai e filho que agora poderão ir em direção à Molly, a figurativa Penélope.
“- E qual é acaso seu nome?
Precisamente no mesmo momento o senhor Bloom tocou a ponta da bota do companheiro mas Stephen, aparentemente desconsiderando a instante pressão de um sector inesperado, respondeu:
- Dedalus.”